Maria Ivone Vairinho e Poetas Amigos

Abril 27 2010
Decreto que se liberte o amor.

Que seja livre e puro.

Isento de sensaboronas

mesquinhices.

Decreto aos girassóis

que espreguicem suas pétalas

só pelo prazer de as espreguiçarem!

Decreto

às rosas rubras e aos brancos cravos

que exalem seu perfume

só pelo prazer do olfacto alheio!

Decreto

aos cardos e às papoulas

que sejam livres

sonoros

só pelo prazer de inverter os tons!

Decreto

que em concreto não há decreto

só pelo prazer

de ter prazer…

 

Edite Gil

(Registado no IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:54
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:08
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Abril 27 2010

A ternura do mundo afogou-se

em meninices ceifadas

por largas lâminas

requintadamente resplandecentes.

Tento conservar a pólvora seca

com paciência de caruncho…

Meus sonhos…

meus sonhos tangíveis…

És

palavras mudas num olhar explícito

carência indigna, de um beijo da alma

tal alvo cisne,

inquiridor de um pobre coração,

num sereno lago de águas tranquilas…

 

Edite Gil

(Registado no IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:53
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:07
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Abril 27 2010
Lobrigo

um longo sortido de cores naturais,

previamente estudadas, para serem naturais.

Há mil caixas de suspiros, em alcofas acolchoadas,

ansiosa e demencial insagacidade!

Espalhafatosa e vociferante de lantejoulas,

de gravatas e de botões de punho

a voz mimosa de falsete, é feita estandarte.

Quase incontidamente me permito não ripostar.

Oh liberalismo

apregoado com ira e soberba desnudado de verdade

sob pedras pára-quedistas de traição.

Questiono os caprichosos ângulos obtusos de norte e sul…

Eu

desejo meramente depilar-me dos emplastros…

 

Edite Gil

(Registado no IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:51
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:07
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Abril 27 2010
Há uns estranhos sons

uns amargos roncos

no leilão dos valores tradicionais!

No cabo e de uma haste metálica,

o florete ostenta orgulhosamente

a lâmina prismática e pontiaguda,

de fio e contra fio

 

cumpridora de seu dever.

O vento sopra com ira

e calca a pilha de versos.

Afinal

os afogados navegam sempre de boca para baixo.

 

Edite Gil

(Registado no IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:50
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:06
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Abril 27 2010

Há galhos, como braços, em oração para o celeste

volvidos, pedindo um pouco de sol.

Oração difusa, incontida, penosa,

e o sol, é mole.

Há violetas pretas

de raízes de renda,

abertas,

fora da terra.

Há um espelho, de bruços no lago.

Há o frio da adaga no meu dorso desnudado,

na noite cor de maçã.

Há um vento lento, de saudades indefinidas.

Na montanha que rompe a floresta

há um silêncio acetinado

que fecunda a luz maga

que fermenta

as horas que vegetam na minha tarde gorda…

Eu,

de subtis núpcias do olhar

quero inflar, enfunar e navegar…

Eu

quero subir à garupa

apertar os freios

e seguir a galope

no meu cavalo de pau.

 

Edite Gil

(Registado no IGAC)

 

publicado por Edite Gil às 22:48
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:06
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Abril 27 2010

Na manhã molhada

eu só quero

lentamente

muito devagar

encostar os lábios

roçar levemente a língua

e sorver

uma laranja estupidamente doce.

 

Edite Gil

(Registado no IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:47
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:05
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Abril 27 2010
Não sei porque me detenho…

Entre sombras ocas

encontro uma sarcástica quietude…

Quero poder chorar o Outono

nos confins da planura…

Quero saciar

a água solitária que escorre nas paredes inauditas…

Nas tardes e manhãs, que num esgar se tornam anãs

oscilam clarões de promessas de virgindade…

Terão as rosas vergonha de ter espinhos?

 

 Edite Gil

(Registado no IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:46
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:05
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Abril 27 2010
Com os sulcos do tempo nas raízes da memória

os gestos já gastos repetem-se

de uma forma automatizada.

Maquinalmente infatigável

infatigavelmente mecanizada…

Sinto-me absconsa aquando do ocaso!...

Por vezes

há o fechar os olhos!

Há o sonho

onde o coração é estrela polar…

Há a libertação

de uma existência sonâmbúlica…

Há que dissociar e abscindir!...

 

Edite Gil

(Registado no IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:45
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:04
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Abril 27 2010
Fechar os olhos.

Sentir na boca

o bater de asas

de uma mariposa multicor…

Sentir o anil

espraiar-se em mim…

Teus lábios afloram os meus…

Entreabrimo-los…

A mariposa

lentamente

passeia-se por nós…

Alastra-se o anil…

Somos embalados

por uma brisa morna

e perfumada…

Por nossos corpos

alastra-se o matiz…

Irreflectidamente,

vamos desvendando

o segredo de ouro…

 

 

Edite Gil

(Registado no IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:44
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:04
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Abril 27 2010
No desassossego do meu dia
tento transpor as minhas nuvens
mas meu passo fatigado
tem um ululante som

tais caravelas à deriva nas ondas uivantes…

Os horizontes já enevoados

inexoravelmente cruéis…

A avidez consumista cativante dos tempos

não permite

beber os segredos

nem abrir a porta dos mistérios…

Bárbaro grito de meu ribeiro!

Barbara dança de cristal

que dorme dormente na cansada calçada.

  

Edite Gil

(Registado  o IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:43
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:03
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Abril 27 2010

Na ânsia descomedida do prolongamento

a salsugem do tempo salgado

perpetua momentos férteis de tristeza…

No crepúsculo índigo

denoto a herança empobrecida da tristeza…

Não tenho os pecados em dia!
O tempo gasta o tempo e oferta-lhe

açoites mestiços do místico tempo imprevisível…

Silhuetas quixotescas

inspiram insanidade e sofreguidão espavorida.

Eu,

exilada em meus muros de receios tamanhos
essência…

Sintaxe do ser na alquimia da infância…

Alva pomba de espuma na escuridão da insolência

onde estrelinhas choram…

Imergindo em mim emerge nada…

Já tudo é pertença da paisagem…
Até o sabor a rosas, lírios e groselha …

 

Edite Gil

(Registado no IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:42
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:03
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Abril 27 2010

Observo o céu inspirado!

Observo o verde urgente!
Observo o binómio do côncavo e o convexo.
Observo o cumular de memórias na memória.
Afogo o mar com estrelas.

Imponho o limite decretório.
Inclino outeiros e mato arribas.

Lanço versos, tais pétalas,

espezinhadas num chão enlameado…

E por fim

rasgo toda a ilusão, num desejo de unhas compridas…

 

Edite Gil

(Registado no IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:40
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:02
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Abril 27 2010
Quero

a insistência incompreensível da interpretação da vida,

nas fendas da azáfama.
Quero

conhecer os som da crepitação das minhas palmas.
Quero

aromas exóticos

no fardo fadado do trilho da dor

no ângulo mais recôndito da alma

e na aragem luzidia…
Quero

que alguém pinte minha alma sem corpo.

Quero

o som racional no instinto da racionalidade.

E porque os sonhos não dormem

Quero

fazer da palavra, semente e plantar a consciência.

 

Edite Gil

(Registado no IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:38
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:02
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Abril 27 2010

Com precisão de esmo

a brisa morna
abranda luz da madrugada

num doce mar amargo…
Omito as rajadas de tédio

numa envolvente vertigem…
Na imprudência solitária do jardim

o rabisco de nuvem

fede sentenças

num perfume que calcina as almas.

O vento sopra rubi
a assimétrica nevasca borrasca que no tempo navega…

Vendo às trevas

o dia do quintal das infâncias.
Lavro a ironia

e procuro um sorriso nas gavetas de quimeras…

Edite Gil

(Registado no IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:37
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:01
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Abril 27 2010

 

Sem pedir licença

a dualidade incandescente da memória
permite que as nuvens chorem pela alvorada

na semântica contundente do progenitor

que cede ao exílio voluntário
da areia bronzeada…
Nua e pobre a tarde de estio…

A formosura do silêncio

ofusca o subtil silvo do bosque

numa gargalhada cristalina…
A vida prima pelo moer até à extrema alvura…

A alma escurece…
O sol poente deixa-se embalar por uns braços de oiro…
A flor em botão só permite palavras soluçantes

duma água tagarela…

Só permite cultivar, no céu, a esperança do sonho
num arco-íris sem rima nem engenho…
Mas tu

és a fragrância das flores que exalam maresia

quando finda a ceifa…

 

Edite Gil

(Registado no IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:35
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:01
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Abril 27 2010

No étimo da memória

a reminiscência de sorrisos…

Declaro pobreza assumida na demência das mentes!

Traço traços, faço rabiscos, arrisco uns riscos paradoxos!
Finco os pés finos e fico

mirando o trote das árvores.

Visto-me de paisagem…
No alfobre,

nem botão nem flor seca…

Esqueci as cores da juventude

e a gravidez das estrelas…

As andorinhas engripadas não rumam para Sul!

Submirjo de beijos rubros de doçura

na cor travessa do sentimento!
Na agonia da ira do amor

quero a embriaguez de verdade!

Ordeno ao odor do crepúsculo coruscante, reluzente

a insânia insónia!

Estou tão perto de nada no dorso da calçada
presencio a canção das águas…

Afinal

só quero de volta a minha alma

e desenhar nostalgias desertas distraidamente excêntricas…

 

Edite Gil

(Registado no IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:34
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:00
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Abril 27 2010

Qual é o teu lobo interno?

O medo, o ódio, a ira?

Oh!

erva daninha incauta e viçosa

que viço o teu

neste muro de baluarte abandonado

abonado de abandono ao crescimento desmesurado

desmesura na falta de vida de um muro

muro hercúleo de pequenas pedras

sem fiel

sempre só fiel a si próprio

qual é o teu lobo interno?

Que sábia metamorfose

te fez perder o Norte?...

 

    Edite Gil

(Registado no IGAC)

publicado por Edite Gil às 22:31
editado por appoetas em 01/05/2010 às 00:00
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Abril 27 2010

 

 

Havia tanto azul por inventar

Neste país amorfo e tão cinzento...

Um grito a germinar deste lamento,

Uma voz que ninguém pode calar...

 

Havia Abril em nós, mas sufocado,

Um Abril estrangulado e por nascer,

Mas levedando em nós, sempre a crescer,

Pujante, inevitável, adiado...

 

Neste país com medo em cada voz

Onde sonhar um sonho era punido

Com grades de prisão e com tortura,

 

Nasceu, um dia, Abril em todos nós!

Bendito seja o sonho enfim cumprido

Por quanto desse Abril em nós perdura!

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa 

publicado por Maria João Brito de Sousa às 16:33

Este blogue está aberto aos co-autores e Poetas Amigos de Maria Ivone Vairinho
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